dakini

minha matéria quando deixa a massa e o músculo pra trás se faz argila, e eu nunca vou saber se ela endurece de sabedoria, de terrível coincidência ou por um tal de interminável sucesso. meu desejo de conhecer mínimas vanguardas é avesso: eu iria às Índias a fim de descobrir toda a América.

vida

é pra quem aguenta o contrapeso
e que volta um dia. que jura que volta. e que volta melhor.

pra quem engole a certeza
e faz da satisfação um mantra

pra quem nega o mundo pra se afirmar
e garante que o real é aquilo que resiste

que o mundo não nos ama, sabe?
mas a gente move tudo.

Ela era um tipo de droga. Uma droga de perfume bom e sorriso deslumbrante. Um vício atípico de terça-feira, daqueles que não se pode esperar da sorte.

Eu deveria ter notado que você era cilada. Te vi numa terça-feira. Ninguém é feliz às terças, Bonita. Amores de terças-feiras têm urgências em durarem somente até domingo e você não foi tão diferente.

Você gostava de artistas que deixavam uma segunda antipática com jeito de sexta, e cantava em baixo tom o contorno de um refrão. Gostava de bandas com jeito de avós, e nunca deixou de me lembrar: não cria ilusão.

Me jurava de pés juntos que não tomava coisa doce. “Só café preto, com gosto de quarta, Júlia”. Lembro do seu próprio calendário, e do quanto você sempre odiou quartas-feiras. Mas eu guardo no pote de açúcar a lembrança do ódio às quartas que você riscou quando soube que meus melhores dias caíam nelas.

Você é boa com palavras, Bonita. Por mais que não acreditasse quando eu te contava. Cada poesia de um verso conclamado era uma manhã de sábado com sol. Mesmo dizendo que ainda está aprendendo, ou que é vazia, que não sente nada.Você é desse tipo inesperado, Bonita. Um sábado de sol sustenido. E eu sempre gostei de surpresas.

Veja bem, tinha antes tudo em meu controle. E você chega assim, numa terça-feira, tirando toda autoridade. De tudo, Bonita. Porque a linha de raciocínio escorria no pé do dia quando você chegava perto demais. Com essa droga de perfume que nem cheiro de terça-feira tem. Cheiro de Moça Bonita, de dia bom, quarta-feira. O cheiro que ficou no meu pescoço, na minha roupa e em todos os dias do meu calendário. Eu sempre preferi o seu perfume ao meu.

E o seu sorriso, Bonita? As quartas poderiam estar frias, mas aí vinha você, dona de um meio-sorriso que não me deixava esquecer que os dias bons caíam quando você estava aqui.

Todo o vício que arrumei em você me faz escrever. Escrever, Bonita. Você que sabe que palavras são sagradas assim como mau-humor com costume de domingo. Eu que sempre achei perigoso escrever para outra pessoa, estou aqui escrevendo sobre o vício em você.

Você tinha um riso que ecoava dentro de você. Porque você ria, Bonita, e cuspia até o seu coração. Intensa, Moça Bonita, isso que você sempre foi. Sexta-feira de festa tentando encaixar numa quinta de manhã.

E você se lembra que eu sempre dizia que amores de terça-feira só duravam até domingo, não se lembra? Hoje é sexta-feira e eu já me encontro em abstinência.

Não esquece, Moça Bonita. Não esquece da bagunça que você fez. Deixa o fim para mais tarde e volta aos domingos. Pra arrumar minha gaveta, o meu armário, a minha vida. Faz diferente como você sempre fez.

Seu café ficou em cima da minha cabeceira e o meu vício já não se traja mais de mania. Traz seus milhares de problemas e me ajuda a anotar aí nesse seu calendário: não existe semana sem você.

Em uma dessas tardes em que o sol se choca com os reflexos da rua, eu reparei na porta aberta e parti. Fitei pela janela, no meu melhor tempo livre, o meu passeio para o distante. A cabeça erguida não acobertava as breves olhadas para trás. Sempre julguei vital memorar de onde se partia para não perder-se na estrada.
Minhas roupas deixaram as gavetas, e a toalha molhada não descansava na mesma cama. O quarto não transpirava a mesma essência, e os sapatos já não ficavam mais embaixo do sofá.
Eu enxerguei em outra casa antiguidades mais dispostas a sorrir e encantar. Queixava-me por mudar-se complicada, mas não me encontrava prestes a deduzir o que o coração dizia.
Foi num natalício, quando éramos vizinhas da mesma conhecida. Do fim da rua que revelava o sol, nos assistíamos com um apreciar de quem há tempos já sabia da verdade. Ela articulava sobre transformar. Raspar o cabelo em casa, com aquela ingênua inexperiência de um filme francês. E a franja acomodava os olhos que se enquadravam nos meus.
Quando assinalamos conceder-nos ao que há de vir, garantimos o controle de um roteiro bom. Um tipo mais provável ao que desejado. Mas quando nos perdemos entre a direção de cada arte, e quando tudo ao lado dela vira perspectiva, a gente deixa de lembrar-se da imprudência de qualquer vídeo europeu.
Ela tinha Corse no próprio coração, e a minha geografia não chegava, até então, em Paris nas épocas de verão. Mas a noite de chuva num apartamento com cara de chá me assistia como quem me prova motivos para crer que o final feliz preferiu possibilidades não agendadas. Lá do fim da rua, numa dessas que eu escorreguei, me assistia tentar as maçanetas e viver o sufoco com gosto de desistência de amor. Mas com um olhar de norte de país, a gente segue em frente. E a gente entende que nunca teve medo de chorar. O que dizia aqueloutro Romeu forjava a tradução de uma covardia que não estava sobre os meus ombros.
Os dias chuvosos de Paris derramavam-se sob o choque do Sol e os reflexos das ruas, e o meu roteiro bom ganhava coloração. A cada dia a gente se escrevia em histórias, em tons quentes de vermelho-descoberta, e a suavidade de um azul-aceitação.

 

tenho saudade das tuas reticências.

queria o teu azul constante.

asco pela tua seringa furando a minha pele violentamente ao redor de todo o mundo, rasgando meus tecidos musculares, rompendo meus ligamentos
pelo disparo corrosivo rente aos meus ouvidos, me picotando à bisturi, matando meu senso de equilíbrio
asco pelos helicópteros e tanques de guerra que tomaram a minha casa, destroçaram minhas janelas, mancharam meus lençóis
pelo teu sotaque que carrega a guerra intensa, ostensiva, violenta
asco pela tua palavra, geradora de toda batalha nuclear
pela droga que redefine o meu corpo, expansiva, sangue a dentro
ao espetáculo sanguinário e preocupante em te deliciar com os meus machucados dormentes
asco a ti, anestésica
pela extensão do pacto que gritou pra mim olhando nesses meus olhos
asco a ti, anestésica, por não sentir medo de sangue e se mostrar apresentadora de todo o meu abate
asco porque deveria doer, mas como não dói, você deixa cortar
asco a ti, anestésica, e repúdio a mim.

funciona assim:
eu sinto que o dia já tá sendo muito longo e resolvo ir pro banho pra desassociar o sentido único do meu mundo.
daí antes mesmo de entrar eu reconheço a água fria e o meu fio de cabelo maior quebrando o vidro fumê das minhas retinas.
eu uso trajes de banho pra evitar afogamento. eu tomo banho de sutiã, calcinha e meias. e se os meus pulmões pudessem usar coletes, eles mostrariam o cansaço de precisar processar calor suficiente pra não me deixar paralisar em ducha fria bem no inverno.
depois eu olho o chuveiro pela última vez antes de entrar. eu analiso os canos enferrujados e já sinto o fluído me engolindo e soterrando por inteira.
os pés as pernas os joelhos roxos as coxas a barriga – ai – os peitos o pescoço e a cabeça, ai, a cabeça.
e daí eu entro achando que ele é lago mesmo sabendo que é chuveiro. e eu me afogo e esqueço de nadar no raso porque os mesmos pés e as mesmas pernas e os joelhos roxos também as coxas a barriga – ai – os peitos o pescoço e a mesma cabeça, ai, a cabeça, ficam inertes pelo medo.
e eu não tenho mais salva-vidas que me tome, nesse lago, que me seja, que me transforme, que me viva.
daí eu só mergulho mesmo não sabendo nadar.

funciona assim:
ansiedade.