Às costas dos olhos da menina séria

por ajcmrl

Num ângulo qualquer, contemplo a ausência compulsória do mistério. Vejo-a despindo-se, em pedaços, ausentando-se numa falta contemplada. Ao meu céu, pedaços da figura da lua. Sozinha. Ao extremo do dela, cintilos pequenos, mantendo suspensa toda figura que ela poderia vestir. Cansada das paisagens e das simetrias congeladas nas fotografias, hoje deixa as botas encostadas no balcão da cozinha. Faz um tempo morto, e da minha frestra de espreito, já não vejo mais existências. Por tanto espiar seus ensaios, desorganizei minhas surpresas. Ela, que não era idêntica a ela mesma, era e não era ao mesmo tempo, num lugar similar, e sob o mesmo ponto de vista. Agora não é sublime, não tem causa. Está nua, é o próprio insofismo circundante. Suas lentes de aumento não visionam a cegueira da própria alma, e ela se perde no presságio de uma escuridão. Eu estou atrás: das palavras mais simplistas, dos desejos mais ambiciosos, e das permanências incertas. Velha idade que já não preza pelas suas asas, mais um universo em pó pendurado no mancebo. E eu fico aqui, olhando pela janela, com os pés na janela, e os olhos, também. Eu a vejo cansada, eu a vejo exposta, eu a vejo ostensiva. Eu não a vejo. Eu não queria vê-la assim. Eu, de fato, nunca tinha a visto. Hoje, às três e meia da tarde, seus olhos suados pela maré são descobertos e, por detrás deles, mostram-se minúsculos grãos de areia, tão extensos e tão vastos, que caberiam nas quatro paredes do apartamento que aqui, em plena solitude, eu a observo. A mulher mais humilde deste mundo: veste-se de segredos e esfinges. Eu nunca gostei de modéstia. Fecho as cortinas e desisto de volumes únicos. Atrás de vistas incógnitas, existe um enorme abismo de coisa nenhuma. Eu sempre olhei pelo buraco que desembocava em mim.

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