Não há estação de trem que a leve até ela

por ajcmrl

Estimulada pelos pássaros das coincidências que haviam pousado juntos nos seus ombros, ela tirou uma semana de descanso sem avisar a mãe e subiu no trem. Ia sempre ao banheiro se olhar no espelho e implorar à sua alma que não abandonasse nem por um segundo o convés de seu corpo naquele dia decisivo da vida dela. Enquanto se olhava, ficou com medo: todos os batimentos descompassados do seu peito resultavam na sequência combinada do que ela podia ser.
O motivo da estação admitia que fossem gargalhadas, e que a primavera merecia as realidades de uma certeza inteira de vidas vãs quando o meio termo da voz dela se aconchegava em seus ouvidos.
Sua vida cotidiana era repleta de bancos amarelos e ruas extensas e barulhos banais. O fortuito eram os poucos acasos, aquele de largar a semana de canto e usar a chave presa do pedido de sem nada programado deixar a mesa da rotina.
Do outro lado ela convidava os instantes para danças, à fim de treinar os dois pra cá e os dois pra lá que colariam corpo a corpo entre ela e o motivo de tanta imploração.
E ela se via sentada nos bancos dos transportes e com os pés nas avenidas largas que podiam ser estreitas e com as mãos atrás das costas agarradas na caneta que expelia a tinta azul celeste de dois corações.
A penumbra no espelho dizia que ela estava nervosa. Ela sabia o quanto as bochechas e as marcas e as pintas e as curvas, os descompassos e os nervosismos, e as preocupações, e os acasos, e as teorias e explicações. Eram importantes e singelos. O achismo singular da crença dela trazia confiança a ela de que a piscina astral que ela levava como um fardo não era na verdade tão penosa assim.
E eu sei que ela e ela traz desalinho a toda trilha que um trem pode seguir. Acontece que só ela e ela sabem que se sentam ao lado, muito mais do que a leveza, é a surpresa de serem uma. Uma só tripulação que um pouco tarde se encontram em começos de noites e sonhos que escorregam por suspiros e grunhidos de promessas vazias.
O comprometimento de não descer do trem da vida é continuar ouvindo a paisagem de uma ligação coruja de começo de madrugada.
A estação do estado dela era diferente da estação do estado dela, mas nas particularidades de uma parada e outra, as predestinações são definidas como coincidências.

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