aula de música – 5pm

por ajcmrl

Ela se compõe em teclas de marfim para que eu a toque nos pontos certos. Eu digo a eles que se ela viesse banhada em vinho a cada arranjo, eu beberia dela até que minha visão ficasse turva, ao breu suficiente para empoeirar o botão de soneca do despertador que soa como seu gemido.
Me disseram que existe, num ponto nem tão desproporcional, retilíneas que desfilam entre aquelas pupilas. Que não fazem concessão, inflexíveis, intolerantes ao teor de sanidade que qualquer veneno poderia oferecer.
Eu não sei porque insisto tanto em cuspir o que não se pode manifestar. Você acha que conhece o limite, mas não conhece. Não até senti-lo. Ele entra em sua casa, cruza as pernas sob o seu piano e vive dentro de você. Fica a par das coisas e te convence que é apenas um turista. E então você realmente vê que o seu fígado pede em pranto que desista de escapar.
Aí você percebe a sua espécie extinta, desmanchada pela melodia inofensiva de quem te fez ensurdecer a vida.
Ela é a visão de uma imatura sobre a complexidade da decepção. Que o contentamento me perdoe, mas eu não me refiro a álcool ou heroína, eu falo de alguém que vai além da morte que está esperando ou do amor que nunca chegou a funcionar.
Ela não tem anestesia e eu não tentava encontrar uma culpa, mas ela me empurrou contra a parede e devagar inclinou sua cabeça em direção à minha. Meus dedos tornaram-se profissionais e desbravaram as melhores notas que ela podia gritar.
Na aglomeração recital, necessidades se esbarram sem ninguém perceber. Para ela desejo nunca foi estratégia, era urgência. Como Maestrina, ocultava miseravelmente cada partitura explícita.
O timbre da euforia dela apagou a minha liberdade. Eu perco a hora de tocar a vida observando os tornozelos que pendem do meu melhor instrumento.

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