por ajcmrl

Em uma dessas tardes em que o sol se choca com os reflexos da rua, eu reparei na porta aberta e parti. Fitei pela janela, no meu melhor tempo livre, o meu passeio para o distante. A cabeça erguida não acobertava as breves olhadas para trás. Sempre julguei vital memorar de onde se partia para não perder-se na estrada.
Minhas roupas deixaram as gavetas, e a toalha molhada não descansava na mesma cama. O quarto não transpirava a mesma essência, e os sapatos já não ficavam mais embaixo do sofá.
Eu enxerguei em outra casa antiguidades mais dispostas a sorrir e encantar. Queixava-me por mudar-se complicada, mas não me encontrava prestes a deduzir o que o coração dizia.
Foi num natalício, quando éramos vizinhas da mesma conhecida. Do fim da rua que revelava o sol, nos assistíamos com um apreciar de quem há tempos já sabia da verdade. Ela articulava sobre transformar. Raspar o cabelo em casa, com aquela ingênua inexperiência de um filme francês. E a franja acomodava os olhos que se enquadravam nos meus.
Quando assinalamos conceder-nos ao que há de vir, garantimos o controle de um roteiro bom. Um tipo mais provável ao que desejado. Mas quando nos perdemos entre a direção de cada arte, e quando tudo ao lado dela vira perspectiva, a gente deixa de lembrar-se da imprudência de qualquer vídeo europeu.
Ela tinha Corse no próprio coração, e a minha geografia não chegava, até então, em Paris nas épocas de verão. Mas a noite de chuva num apartamento com cara de chá me assistia como quem me prova motivos para crer que o final feliz preferiu possibilidades não agendadas. Lá do fim da rua, numa dessas que eu escorreguei, me assistia tentar as maçanetas e viver o sufoco com gosto de desistência de amor. Mas com um olhar de norte de país, a gente segue em frente. E a gente entende que nunca teve medo de chorar. O que dizia aqueloutro Romeu forjava a tradução de uma covardia que não estava sobre os meus ombros.
Os dias chuvosos de Paris derramavam-se sob o choque do Sol e os reflexos das ruas, e o meu roteiro bom ganhava coloração. A cada dia a gente se escrevia em histórias, em tons quentes de vermelho-descoberta, e a suavidade de um azul-aceitação.

 

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