dakini

minha matéria quando deixa a massa e o músculo pra trás se faz argila, e eu nunca vou saber se ela endurece de sabedoria, de terrível coincidência ou por um tal de interminável sucesso. meu desejo de conhecer mínimas vanguardas é avesso: eu iria às Índias a fim de descobrir toda a América.

bonita, tô pra te contar
de mim borbulham só coisas estranhas

nuns dias aí, aconteceu de eu ficar triste
vou te falar a verdade, viu, não vem sendo fácil
nem te conto, bonita, o que saiu dessa boca que te fala

ato falho

mas nem era desses que a gente se atenta
era insalubre, sabe?, me botou na cama
daqueles de fundo, bem pesado, mesmo

ai, bonita, você não imagina
no meio de tudo isso senti impulso criativo

oração

que você não se apague de mim
que você não se queime em mim
que você não se arme contra mim

que meus poemas ainda sejam teus
que eu não me ache uma grande bocó
que o teu cheiro não me amarre o nariz

eu fui me segurar para não mandar quando tudo em mim pedia um beijo
fui arrumar o quarto, trocar o lençol
abri o guarda-roupa e tudo que eu soterrei ali caiu em mim

e, bonita,
o ruim é que o ruim não é nem isso
porquê olhando pra tudo ali de fora
vi que desse coração só se bordavam coisas esquisitas

tipo saudade, sabe?
é claro que não
eu nem disse amém no final da oração.

poço

aos poucos meus olhos foram se acostumando com a luz do fundo. você, para eu que sofro, passa empacada no meu remoer de esperar, pausada na história pingada que me trouxe escorregão. precisa de muita coisa do mundo que a minha mágoa é debilitada a dar.
me cobra um universo de comprovações pra não deixar que tuas vontades catem qualquer peça do hemisfério que possa causar mais um hematoma. que você por estar nesse tempo pode exigir e me justificar.
eu não colocava sentimento, mas agora um dia emenda o outro e a gente não tem pausa nem pra pôr do sol. pra eu que sofro, o tema foco é incômodo; relação gradual.
quem tem que ter paciência não sou eu – se já não me abundasse, o relógio não cravaria no roxo da garganta. eu grito o quanto quiser, eu posso querer agora, querer com velocidade, é tudo emergência pra mim.
paciência é pra você que feriu. pra não cambalear num ai de objeção falando sobre o meu deslize em estar me doando demais. paciência num tempo parado, pra dizer retrocedida – se ainda lhe restar coragem – que não foi trânsito nem trampo nem emergência ou saída.
a agente tem que dar sua palavra se quiser ficar, se quiser misericórdia. tem que doar com gosto as tuas ataduras pra ensanguentada, porque das convicções da atingida ela já tirou metade.
o fundo para quem sofre e o fundo para quem causa são sempre distintos; não deixe que a segunda inverta os papéis;
um par de olhos já exigiu o mundo, agora num direito a protesto ele exige uma borda
– do que ela chamou de carinho.

do leite materno ao crack: você nasceu para viver nesse mundo, com o intuito de chegar e conseguir foder a minha vida.
e eu não me arrependo de não saber mais do gosto e não enxergar mais o tom. porque eu me sinto quando estou dentro da loucura total.

injetei droga
vomitei em bordéis
fodi com toda a cidade em um só playground
chapei no meu jogo de fingir
torrei o meu dinheiro com pessoas esquisitas
transando e me machucando as hell
e não aprendi merda nenhuma
porque continuava entorpecida e anestesiada
a pensar naquela milonga
que você tocou olhando nos meus olhos
meu deus esses teus olhos
e tudo isso engordurou rápido demais
saiba que tenho que morrer a vida toda pra esquecer você
que quando você acordou
dizendo que me amava
adeus

Que espero, ao menos, que em alguma faceta onírica dos seus rastros, bata em permanência um fio de crença que te mude pra cá.

Eu não vou brindar de pureza quase sã quando me colocarem pra fora de casa. Que é como ter a imprudência de escolher perder o que não se vai encontrar e ficar com o que hora ou outra vai me desistir.

Por isso eu quero dizer que pode entrar. Quero que saiba disso. Que comum é o que vai além da fragmentação dos infortúnios, mas oscila no que os pés cantam como costumeiro.

A inabitual possibilidade de ser carinho e devoção. Apenas porque ninguém parecia digno das tuas fases. Tolice limitar as oportunidades por bloqueios momentâneos.

Que a parte mais rara a gente já tem: a naturalidade de estar em casa, de falar sobre saudade numa intensidade rápida não forjada. Que queria gritar – e o fiz – que a minha inconstância sentiu você, e que nunca mais vai existir hora certa pra essa gente confusa me dizer que eu escolhi errado.

Que se ficar, eu não vou mais. Mesmo que as solas dos sapatos, ainda sujas de barro, deixem aquele canto pra trás.

Hora ou outra eu espero os seus olhos nos meus pra me dizer que matou o que um dia prometeu te sufocar.

E que se eu mudar de ideia e cansar de relutar, lê toda essa entrega pra mim.

Que se não há tranquilidade suficiente pra granjear as mínimas vírgulas, é porque não é neste espetáculo. Que insensatez o valor subir.

São as aversões: o mundo nos precisa.

– foi sobre matar a saudade sem falar de amor.

tem medo de se perder  – e não percebe que é perdida por natureza
torta das ideias, maluca da cabeça
coitada
tão apegada a quem passa pela vida que pede pra que nunca voltem
que fiquem do outro lado do mundo se necessário pra ser feliz
que vá
e que leve a saudade junto
no final das contas tudo passa
o delírio é inconstância e o adeus a gente não precisa segurar
o resto, joga-se ao vento

que diga o contrário e troque de lado no mesmo segundo
porque ter e provocar nunca foi algo a se pensar
reconhece e aceita
se morde, quebra o vaso na parede e arrebenta um souvenir
mas recusa, menina, quando não quer e não precisa

foge que é passarinha e passa da idade de ser assim
muda
transmuta
é uma quando acorda, outra quando vai dormir
de palma aberta, pra cima, em oração
o amor beija a mão
e escorre num punho fechado que grita a revolução

ela nem sabe a mania de dizer
não sabe onde cabe
às vezes nem cabe.

Pois tenha certeza
Se você for sincera
E prestar atenção no que estou falando
Vai perceber que eu me refiro sempre
Ao teu instinto de artista
E à devoção especialista
Do jeito que amarra os cadarços
Ajeita os riscos do vinil
Fala sobre percussão
Pois tenha certeza
Que se eu escuto todo mundo
Eu não escuto ninguém
Mas que quando você arrasta o portão
Abre a porta dançando a cena de uma solidão
E me pede pra ficar à vontade
Eu ouço cena, ruído e neblina
E que caia e despenque entre nós
Que se você não aparece pra falar de amor comigo, meu bem
Eu dou um jeito de sumir também
De me esconder entre todos os quadros surrealistas
– que aquela artista favorita diz que é a realidade
Das tuas paredes
E te ajudar a colar um por um
Todos aqueles pôsteres e sonhos gigantes
Que você me conta toda vez que me vê
Pois tenha certeza
Que eu os deixaria no teto, na sala, num quarto discreto
E abriria a janela pra não deixar-te esquecer da liberdade.